domingo, 19 de junho de 2011

Mares nunca dantes explorados

A mais completa pesquisa global sobre a vida nos oceanos, realizada por 2,7 mil cientistas de 80 países, descobre novas espécies e revela que os mares estão ameaçados pela exploração econômica, pelo aquecimento global e pela nossa ignorância sobre eles


O oceanógrafo Neil Bruce, do Museu Tropical do Queensland, investiga novas espécies num aquário iluminado na Ilha da Lagartixa, no nordeste da Austrália.


O mais abrangente programa de investigação sobre a vida nos mares mostra que a ciência conhece muito pouco sobre os oceanos. Durante dez anos (de 2000 a 2010), o Censo da Vida Marinha mobilizou 2,7 mil pesquisadores de 80 países, promoveu 540 expedições e investiu US$ 650 milhões para descrever 1,2 mil espécies - aumentando para 230 mil o número de espécies marinhas conhecidas, plantas, invertebrados e peixes. O total deve aumentar porque ainda existem 5 mil organismos sob análise. 


 Os cientistas comprovaram que os mares com a história evolutiva mais antiga são os mais ricos em biodiversidade: os do Japão, com 33 mil espécies, e os da Austrália, também com 33 mil. Entretanto, até agora, apenas 1,75 milhão de seres dos 30 milhões existentes no planeta foram descritos. O oceano é uma caixa-preta.
   

                                                                          O verme Squidworm, descoberto no Mar de Celebes,  na Oceania.                                                                                                                                         



Além de diminuir a ignorância humana sobre os oceanos - estampada nos mapas de navegação do século 16 pela expressão "Mar Incógnito" -, o programa multidisciplinar do censo ajudará a avaliar as ameaças sobre os ecossistemas marinhos, como mudanças climáticas, impacto da pesca industrial e vazamentos de petróleo, como o que atingiu o Golfo do México em 2010. O Censo da Vida Marinha é um projeto do Consórcio de Liderança Oceânica, instituição sediada em Washington (EUA), que conta com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), de agências governamentais de 80 países, da Escola de Oceanografia da Universidade de Rhode Island (EUA), do Laboratório de Ecologia Marinha da Universidade de Duke (EUA) e também de empresas privadas.
Os cientistas acharam criaturas vivas desconhecidas em fontes hidrotermais submarinas com temperatura de 400º centígrados, em mares congelados e em águas com pouca luz e oxigênio. Entre vários seres exóticos registraram um caranguejo de garras peludas, uma lagosta gigante, um peixe antártico sem nenhum pigmento vermelho no sangue e um hermafrodita que habita as águas do Oceano Índico e é um dos maiores peixes de recife do mundo.
 



Das 30 milhões de espécies supostamente existentes no planeta, só 1,75 milhão foram descritas até hoje. Os oceanos ainda são caixas-pretas para a ciência
Das 30 milhões de espécies supostamente existentes no planeta, só 1,75 milhão foram descritas até hoje. Os oceanos ainda são caixas-pretas para a ciência
Karen Gowlett-Holmes
O dragão-marinho-folheado (Phycodurus eques) recorre à camuflagem para parecer uma folha.


Molly Timmers, NOAA PIFSC Coral Reef Ecosystem Div  


Peixe hermafrodita da Nova Zelândia. O design da face lembra as tatuagens dos guerreiros maoris


Ifremer, A.Fifis 

Caranguejo de garras peludas da Ilha de Páscoa.

Karen Gowlett-Holmes

Uma nova anêmona descoberta em águas tropicais.

J. Gutt © AWI/Marum, Univ. de Bremen, Alemanha   

Peixe antártico destituído de pigmentos vermelhos no sangue, adaptado à baixa temperatura.

 








Por Maria Fernanda Ribeiro


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