segunda-feira, 4 de julho de 2011

Plano B contra o aquecimento global

Enquanto o mundo (quase não) se esforça para reduzir as emissões de gases-estufa, alguns cientistas já trabalham com alternativas mais radicais caso o aquecimento global se agrave. Jogar no oceano imensas quantidades de micropartículas de ferro, aspirar o ar para filtrá-lo ou lançar na atmosfera um milhão de toneladas de enxofre são algumas das opções em estudo


 Simulação artística da alternativa de desviar raios solares com guarda-sóis gigantes: custo alto e eficácia limitada



A geoengenharia é um tema quente na comunidade científica. Tentar limitar o aquecimento global manipulando o meio ambiente é uma ideia com diversas ramificações, atualmente sob análise de um número crescente de químicos e de físicos, entre os quais estão Klaus Lackner (Estados Unidos), Ian Jones (Austrália), James Lovelock (Grã-Bretanha) e Paul Crutzen (Holanda).

Nesse "Plano B" para salvar a Terra do aquecimento global, há duas alternativas preferenciais: capturar dióxido de carbono (CO2) a fim de reduzir a concentração de gases-estufa (por exemplo, fazendo árvores sintéticas, "semeando" os oceanos com ferro ou cobrindo o fundo do mar com cálcio); e desviar a radiação solar usando guarda-sóis gigantes compostos de bilhões de discos de vidro escuro ou revestidos por camadas de partículas de sal ou de sulfato. A primeira opção envolve menos risco do que a segunda, mas é bem mais lenta. Nos dois casos, os custos são altos e a eficácia das soluções permanece limitada.



O exemplo de Vênus
Vênus tem a chave para nos libertar do aquecimento global? Em um comunicado à imprensa em 5 de novembro de 2010, o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, anunciou que cientistas haviam localizado uma camada de dióxido de enxofre (SO2) na atmosfera superior do planeta. "O SO2 é de particular interesse já que o gás poderia ser usado para resfriar a Terra através de um processo de geoengenharia apresentado pelo Nobel de Química Paul Crutzen [1995]", explica o comunicado.]




Cinco anos atrás, Crutzen imaginou uma solução de emergência para o aquecimento acelerado: liberar um milhão de toneladas de enxofre na estratosfera. Através de uma reação química natural, isso se transformaria em SO2 e, a seguir, em partículas de sulfato. Ao refletirem os raios do Sol, as partículas reduziriam a temperatura média da Terra. A ideia foi inspirada na pesquisa feita nos anos 1970 pelo climatologista russo Mikhail Budyko e também pela erupção do vulcão Pinatubo (Filipinas), que lançou 10 milhões de toneladas de enxofre no ar em 1991, levando a uma queda de 0,5ºC na temperatura média da Terra no ano seguinte.

Para Xi Zhang, responsável pelas simulações de computador que confirmaram a presença de SO2 na atmosfera de Vênus, as aplicações da descoberta no controle do clima estão fora de sua área de competência. Mesmo assim, o artigo que ele e sua equipe do Instituto Californiano de Tecnologia (Cal Tech) publicaram na revista Nature Geoscience não exclui tal possibilidade. Ele conclui que, "como há um alto grau de similaridade entre a camada de névoa superior em Vênus e a camada de sulfato terrestre na estratosfera (camada Junge), importante regulador do clima da Terra e da quantidade de ozônio, esses resultados experimentais e modelares podem ser relevantes para a química dos aerossóis estratosféricos e as aplicações da geoengenharia para o clima da Terra".

Mas é preciso cautela. Em altas concentrações, o dióxido de enxofre pode causar doenças pulmonares e cardiovasculares, afora tornar os oceanos mais ácidos, corroer metais, etc. Para os pesquisadores, ainda existe um longo caminho a percorrer antes de aplicar o "protetor solar" na Terra

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